quinta-feira, 15 de março de 2012

Práticas de Jejum - Quarta Semana da Quaresma: O Jejum dos Ouvidos

Por Deiber Nunes Martins

Nossa quaresma vai passando pelas práticas de jejuns e vamos aprendendo a medir nosso passo, cuidar do que olhamos, falar menos... enfim, vamos aprendendo a nos doar para Deus. Doar nossos passos, nossos olhos, nossa língua, tudo em prol do Senhor, que no deserto privou-se de tudo, para depois se privar da vida, por nós. Para nos salvar. Nesta quarta semana, vamos fazer o jejum dos ouvidos. Vamos aprender a ouvir e escutar.
E há diferença entre ouvir e escutar. Enquanto a primeira é involuntária, fisiológica, para sermos simplistas na análise, a última envolve nossa compreensão, nosso processo de raciocínio e também nossas emoções. Tudo ouvimos mas nem tudo escutamos. Já ouvimos em algum momento, alguém dizer: "É melhor ouvir isso que ser surdo." e também já escutamos: "Sou todo(a) ouvidos." No primeiro dizer se ouve e no segundo se escuta. Ouvimos o som alto do apartamento do vizinho e nos esforçamos para escutar um amigo ao telefone, em meio a tanto barulho. O ato de ouvir é involuntário enquanto que o de escutar, requer um maior esforço.
Nos Evangelhos, percebemos que Jesus não fazia milagres involuntariamente. Era preciso alguém buscar os pães e os peixes, as talhas d'água... Sempre é preciso algo mais. Fazer uma lama com terra e saliva e passar nos olhos, passar a cama pelo teto da casa, tudo envolve esforço, como o esforço que fazemos para escutar, compreender. Como às vezes é difícil compreender o outro, escutar o outro! Como é difícil escutar o aviso de quem nos ama, sobre o caminho errado que estamos percorrendo! A pessoa diz e nós ouvimos. Mas não escutamos. Ouvir é fazer entrar por um ouvido e sair pelo outro. Escutar é fazer entrar pelos ouvidos e não sair mais.
O jejum desta semana consiste em escutar mais e ouvir menos. Mas este ouvir menos significa selecionar mais as conversas que prestaremos atenção. Será que aquela fofoca da hora do café, contada pelo(a) colega de trabalho é importante de se escutar, de se ouvir? Será que aquele programa fútil do rádio ou da TV é mesmo necessário de ser ouvido? Aquele comentarista chato, será que merece nossos ouvidos? Começamos selecionando o que ouviremos para então selecionarmos do que ouvirmos, o que vamos de fato escutar.
Quando digo que o jejum desta semana requer que escutemos mais, estou querendo dizer que escutamos pouco e ouvimos tudo. Precisamos equilibrar esta balança. Precisamos escutar mais nossos amigos, nossos pais, a pessoa amada. Escutamos pouco o que vale a pena escutar. Aquela conversa que você achou que não daria em nada com sua mãe, que tal retomá-la? Aquela música inconveniente e grudenta que você optou ouvir em troca de escutar o "sermão" do seu pai, que tal deixá-la de lado?
É preciso termos consciência de que o ato da escuta nos faz compreender o mundo lá fora. Escutar nos faz perceber que Deus nos fala. E que o barulho que o encardido tem feito em sua vida é só um barulho que você pode aos poucos reduzir o volume e ouvir cada vez menos. Deus fala a quem o escuta. O Diabo fala a quem dá ouvidos a ele. Precisamos selecionar o que escutar e o que ouvir também. Nosso ouvido não é pinico, como se diz. Quem escuta, escuta o silêncio porque compreende as coisas mais simples e tão essenciais. Mas quem somente ouve, é dependente do barulho e se fia nele para agir. Quantas pessoas solitárias chegam em suas casas, ligam a TV, o rádio e tudo mais que faça barulho, para não escutar nada! Mas ouvir que tem barulho. Precisamos acabar com isso.
Senhor, nossas vidas têm se tornado uma barulheira danada. Não escutamos. Ouvimos. Ouvimos o que não devemos. Às vezes, Senhor, com base no que ouvimos e não escutamos, nós julgamos comportamentos, atitudes do outro. Como temos pecado com os ouvidos, Senhor!
Senhor Jesus, vós que calastes os poderosos, os ditos entendidos com o teu silêncio, dá-nos a capacidade de neste jejum, aprendermos a escutar. Aprendermos a usar nossos ouvidos e o nosso dom da audição com sabedoria e qualidade. Venha em nosso socorro Senhor, impedir nossas quedas! E louvado sejas, Meu Bom Deus, pelo dom da escuta que nos dás. Pelo dom da vida. Amém.

Belo Horizonte, 15 de Março de 2012.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Práticas de Jejum - Terceira Semana da Quaresma: O Jejum da Língua

Por Deiber Nunes Martins

A Liturgia de hoje nos traz uma passagem contundente sobre os males que nossa língua pode produzir. O trecho a seguir, extraído da passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 18, 18-20) mostra o profeta nas mãos dos homens a quem tentava abrir os olhos, a serviço do Senhor. Mas os insensatos de coração conspiravam contra ele:

Naqueles dias, 18disseram eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”.

19Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. 20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.

Os homens queriam atacar Jeremias com a língua. Queriam caluniá-lo. Muitas vezes a língua humana se faz a mais mortal das armas. Quantas intrigas, quantas maquinações, maldades, calunias, enfim quanto pecado pode conduzir nossa língua?

É pensando nisso que vamos a partir de agora, iniciar o jejum da língua, o jejum da fala. Este jejum não significa ficar sem falar por uma semana. Mas nos remete a pensar um pouco mais antes de dizer qualquer coisa. Este jejum nos impede de dizer por dizer, falar por não ter assunto e muitas vezes, é a falta de assunto que nos faz falar o que não devemos, magoar, ofender, difamar, caluniar.

Uma pessoa que se perde no vício da fofoca é uma pessoa intranqüila. Insatisfeita, está sempre em busca de saber da vida alheia, ultrapassando muitas vezes o limite do conveniente e do correto. Na falta de informações, inventa-se, mente-se, calunia-se.

Quantas famílias são destruídas por se falar de mais? Quantos amizades desfeitas por conta de um mal entendido, uma conversa que poderia ter sido evitada, que não precisava ter existido?

Acredito que muitas de nossas fragilidades e pecados, nós expomos aos outros falando mal de alguém, reclamando, usando mal este dom maravilhoso da comunicação, da fala, que Deus nos deu. Quando uma pessoa fala mal de outra, muitas vezes ela está a alertar seu interlocutor de que o problema pode estar nela e não no outro, a quem ela ataca.

Jeremias estava a pregar para os homens de Judá e estes queriam atacá-lo com a língua. O intento deles era por pra fora seus podres, na conta do pobre profeta, com a calúnia. Quantas vezes não fazemos isso? Vemos defeito em tudo! E falamos estes defeitos pelos quatro cantos. Às vezes agredimos o outro severamente por conta de uma palavra mal proferida. Uma conversa desnecessária.

Assim como as práticas anteriores de jejum, esta prática nos remete ao uso do nosso dom (a fala) somente quando necessário. Devemos nos silenciar não só em jejum mas por toda a nossa vida, quando o que tivermos pra falar não acrescentar nada ao nosso ouvinte. Portanto, cada um que participar deste jejum viva-o com a perspectiva de adotar o silêncio por toda a vida. Esta é uma mudança de hábito que nos faz ganhar tempo, uma vez que ocupamos realmente com o que importa que no caso somos nós mesmos. Que ninguém ache que precisa ficar uma semana sem falar. Mas, com este jejum, que possamos atentar para a conversa somente do que é necessário, deixando de lado as "últimas notícias" do vizinho, as "novidades" da sogra... Enfim, todo tipo de assunto que nos faz falar demais. Isto não é fácil. Requer lutar contra si próprio muitas vezes para fazer prevalecer o que Deus nos pede. Para não caluniar, não humilhar, não ferir, não difamar.

Senhor, que possamos aprender com teu silêncio no calvário. Que possamos nos silenciar diante daquilo que não interessa ao outro e que achamos ser nosso dever revelar. A ti, Senhor queremos seguir. Dá-nos a capacidade de compreender teus ensinamentos e a adotá-los não só como jejum mas também uma prática de vida. Amém.

Belo Horizonte, 7 de março de 2012.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Práticas de Jejum - Segunda Semana da Quaresma: O Jejum do Olhar

Por Deiber Nunes Martins

Caríssimos, entramos na segunda semana da quaresma e o jejum desta semana, não é menos difícil que o anterior. Aliás, não há isso de grau de dificuldade, quando falamos de jejuar. O jejum não foi feito para nos consumir em algo que não damos conta de fazer. Mas o jejum, é uma forma de entrarmos em sintonia com o que Deus quer para nós. E Deus quer a conversão, a transformação do homem/mulher velho em homem/mulher novo. O jejum desta semana é o do olhar.
O que é o jejum do olhar?
Assim como o da caminhada, é um jejum de atitude e por esta razão, muito difícil de se conseguir cumprir. O jejum do olhar é como o da caminhada, é buscar olhar somente para o que interessa. E deixar de lado aquilo que não convêm. Eu decido o que olhar e como olhar. O jejum do olhar vem ao encontro de necessidades bem mais profundas da nossa humanidade. Tem gente, que tem compulsão em olhar o que o outro está fazendo. Em bisbilhotar a vida alheia. O jejum do olhar é uma boa hora pra se evitar este tipo de postura. Tem gente que busca encontrar um erro a todo custo na conduta do outro. Este tipo de olhar maledicente antes mesmo do jejum, deve ser evitado, assim como o olhar de cobiça para a mulher/homem alheios. Não há nada de errado em olhar uma mulher bonita na rua, ou no caso das mulheres um homem. Admirar a beleza é algo saudável. Mas, o mau uso dos nossos olhos, o olhar com intenções obscuras é nefasto para a nossa humanidade. Assim, cada um deve conduzir sua postura do modo como Deus o ensina. No jejum do olhar, se eu posso evitar, contemplar a beleza de uma mulher, evitarei. Evitarei olhar situações que não me dizem respeito e que muitas vezes nossa humanidade vai se calejando em assistir. É o colega de trabalho que chega pra contar o que o colega do outro setor fez. Nós podemos nos privar de saber. Eu não preciso olhar a vida do outro. No jejum, começo a aprender isso.
O jejum do olhar também é uma forma de evitar tomar conhecimento daquilo que não me afeta de modo primário. Atualmente, o noticiário seja ele televisivo, radiofônico, impresso ou digital, parece ter 95% de notícias ruins, e 5% de informes publicitários, comerciais. A cultura do negativismo, da notícia ruim, da tragédia tomou conta do ideário humano. Um amigo meu postou esta semana no facebook que as novelas globais agora, seguem a tendência de mostrar num dado momento a surra que a mocinha dá na vilã. O público quer ver o circo pegar fogo. Todo mundo quer ver a tragédia. Porque não evitar?
Se eu posso evitar de ver aquilo que agride o meu olhar, por que não fazer este bem a mim mesmo?
No jejum do olhar, eu devo fazer a seguinte pergunta: será que o que tenho à minha frente para ver é mesmo necessário que eu veja?
A decisão de olhar é nossa. A decisão de olhar uma mulher passando na avenida; a briga no trânsito, a polícia prendendo o bandido, o vizinho traindo a esposa, o vídeo postado no You Tube, ou no facebook é nossa. Neste jejum, a intenção é não olhar. Não olhar para o que não nos interessa de fato.
É comprometermos a olhar para o horizonte que Deus nos chama a olhar. Olhar de verdade para as necessidades do irmão. Ao invés de perder tempo no facebook, porque não visitar um doente no hospital? Ao invés de perturbar meu colega com as "novas" fofocas do dia porque não aprender algo novo? Porque não revisitar algo bom que o outro fez? Olhar o lado bom ao invés do ruim? Porque não trocar o telejornal mais-do-mesmo por um documentário? Ou um bom filme? Talvez levar a namorada ao cinema, desligar o iphone, iphad ou sei lá o que... Olhar para o que de fato interessa, que é a vida que corre em nossas veias. A dádiva que Deus nos oferece.
Senhor, que neste jejum do olhar, eu consiga de fato, olhar para as maravilhas que Tu criaste. Que eu consiga olhar para o que de fato interessa e assim, deixar de lado os vícios e compulsões de olhar para o lado ruim das coisas, ou buscar o inconveniente para lançar meus olhos. Que eu consiga ao longo desta semana, aprender que Teu Filho Jesus foi tentado a olhar para uma outra realidade, a realidade do pecado. E resistiu, nos ensinando a resistir com Ele. Que eu consiga, Senhor Jesus, ao final desta semana, ter um novo olhar, renovado por Ti. Amém.

Belo Horizonte, 29 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Aquele estranho dia que nunca chega: o católico-light

Por Deiber Nunes Martins

Ao ler o mais novo texto do blog “O Catequista”, sobre a nulidade matrimonial, me vem o desejo de escrever um pouco sobre uma erva daninha a consumir nossa espiritualidade, o católico-light. Ouvi este termo pela primeira vez da boca do saudoso Pe. Léo, em uma de suas maravilhosas pregações e hoje tenho percebido dentro das paróquias, nos grupos e movimentos da Igreja, como o catolicismo light vem estragando as pessoas. Católico-light é aquele que professa a doutrina católica mas comunga de certas práticas contraditórias à religião católica. Vamos falar um pouco sobre isso.

Se fizermos uma enquete entre os grupos pastorais, muitos deles de sólida espiritualidade e outros de catequese, aos quais deveriam ter a obrigação de conhecer a fundo a doutrina católica, perceberemos que um expressivo número de pessoas integrantes destes grupos, acreditam em reencarnação, são favoráveis ao aborto em casos extremos, acreditam e lêem horóscopo, além de seguirem certas ideologias da nova era.

É sério? De onde você tirou isso, Deiber?

Elementar meu caro leitor, basta dar uma corrida pelas timelines do Facebook, por exemplo. Aliás, é nas redes sociais (orkut, facebook, twitter, etc) que se encontra um terreno fértil à disseminação das práticas de catolicismo light. Quanta porcaria o povão compartilha!

Mas, na maioria das vezes, a pessoa não vai na crista da onda desse movimento da web. É assim mesmo que pensa. Muito por desconhecimento da sua fé. Estes incautos são muitas vezes formadores de opinião dentro da paróquia, influenciam e lideram pessoas em grupos pastorais. Ou simplesmente exercem a popularidade que lhes é peculiar e mesmo sem saber, disseminam um catolicismo que não é nosso.

Por isso não é de se estranhar quando o blog “O Catequista” fala sobre nulidade matrimonial, ancorado no desconhecimento da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, sexualidade fecunda e a educação dos filhos na fé da Igreja. Este tripé que legitima o matrimônio na maioria das vezes não é ensinado na catequese, passa despercebido no momento de preparação para o Crisma e em tantas vezes é negligenciado na preparação dos noivos. Tão grave quanto isto é o fato de os casais não aproveitarem o curso de noivos como deveriam e assim compreenderem a essência do matrimônio.

Como se pode perceber, o católico-light vai sendo formado ao longo de sua caminhada dentro da Igreja muitas vezes por outros católicos-light. Católicos que não aprenderam ao longo de suas formações a riqueza da doutrina de nossa fé. Assim, transmitem a experiência de vida que tiveram. Deste círculo vicioso, surgem aberrações como o movimento “Católicas-pelo-direito-de-decidir” ou coisa parecida.

Caríssimo(a), infelizmente o catolicismo light bate à nossa porta. Há pouco tempo tive sérias dissensões com membros de grupos pastorais adeptos da Teologia da Libertação e derivados. Também já vi pessoas bem firmes na fé, pregando suas crenças na reencarnação e em valores espíritas. A TV é um poderoso instrumento do catolicismo light, a serviço do encardido. Na TV valores são corrompidos, o sexo antes do casamento é valorizado, assim como o aborto, a eutanásia e o divórcio são aconselhados, mesmo que implicitamente. E nesta toada vai se formando o católico-light, cercado de argumentos questionáveis.

É preciso que tenhamos zelo e carinho com a nossa fé. Deixar de ser um católico-light é antes de tudo abraçar os ensinamentos de Jesus presentes na Sagrada Escritura. É aprofundar-se nos assuntos de nossa fé, procurar ler as Encíclicas papais e os demais documentos da Nossa Igreja. É ter o Catecismo da Igreja Católica como livro de cabeceira e consultá-lo sempre que uma dúvida surgir. E além de tudo isso, meus leitores, é reconhecer nossas limitações e o nosso pouco conhecimento da fé. Com este espírito de humildade, somos capazes de crescer na fé e defendermos de verdade a nossa Doutrina Católica. Que o nosso Bom Deus nos ajude a sermos fiéis e a deixarmos o catolicismo light, se neste estivermos imersos. Amém.

Belo Horizonte, 24 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Práticas de Jejum - Primeira Semana da Quaresma: O Jejum da Caminhada

Por Deiber Nunes Martins

Amigos, nesta primeira semana da quaresma, uma semana mais curta, de quarta de cinzas até o primeiro domingo da quaresma, quero praticar o jejum da caminhada. Um jejum que talvez esteja sendo cunhado por mim (risos) mas que pode ser valioso para a vivência deste tempo.

Mas em que consiste o jejum da caminhada?

Afirmo que não se trata de abrir mão de caminhar. Mas sim, evitar o “caminhar à toa”, em vão. Evitar ir onde não precisamos ir. Parece simples mas como este é um exercício duro para a nossa vida! Como é difícil evitar aquela caminhada desnecessária à mesa de trabalho do(a) colega para falar mal de alguém, para fazer aquela intriga, aquela fofoca!

O jejum da caminhada também nos permite evitar ir à casa de alguém sem um motivo real, apenas para falar mal da vida alheia. Podemos evitar de ir ao shopping fazer uma compra desnecessária. Podemos jejuar aquela caminhada àquele lugar inconveniente. Podemos nos abster de ir a um lugar que sabemos que não estaremos bem. Podemos nos abster daquela visita desnecessária. Enfim, podemos jejuar aquela caminhada que não nos levará a lugar nenhum, não representará crescimento em nossa vida. Como disse no post anterior, este é um jejum de ação. De modo que busco nele deixar de caminhar rumo ao pecado. E como é difícil este tipo de jejum!

Fazendo o jejum da caminhada, quero selecionar nesta semana, os passos que darei em minha vida. Começando do físico, partirei para o espiritual. Não quero andar errante, perdido, sem rumo. Mas quero gastar minha energia com o que de fato importe. Se neste período, houver um doente a quem eu deva visitar e levar conforto, alento, então não será uma caminhada infrutífera e devo sim ir. Mas não quero caminhar sem propósito definido.

Senhor, Tu que caminhaste rumo ao calvário carregando a Cruz dos nossos pecados, dá-me a graça de viver bem este primeiro jejum da quaresma, que me proponho fazer. Que ao mesmo tempo em que abdique de andar rumo a lugar nenhum, eu deixe de lado a preguiça de ir onde realmente preciso ir. Que caminhe firme na fé e persevere no intento de fazer somente a Tua Vontade, onde quer que eu esteja. Amém.


Belo Horizonte, 23 de fevereiro de 2012.

O Tempo Quaresmal

Por Deiber Nunes Martins

Nesta quarta de cinzas, iniciamos o tempo quaresmal que são quarenta dias de reflexões, jejuns e orações em busca de mudança de vida, conversão. Infelizmente, por desconhecimento das coisas de nossa fé, nós nos abdicamos de viver este tempo como ele deve ser vivido. Muita gente, acha que passar quarenta dias sem fazer aquilo que gosta e que muitas vezes é um vício, como o álcool, vai purificar todos os dias restantes do ano em que fizer o que gosta e que se faz muitas vezes um vício em sua vida. Muitos fazem deste pseudo-sacrifício, uma justificativa para um ano cheio de libertinagens. Quero neste texto e nos próximos que postar sobre o tema refletir sobre este assunto e mais, construir junto com vocês, meus leitores, boas práticas de vida para este tempo de profundo recolhimento e reflexão.

A quaresma são quarenta dias que antecedem a semana santa, precedida pelo domingo de ramos. Neste 2012, tem seu início em 22 de fevereiro e término em 1 de Abril. Durante este período, a cor litúrgica das celebrações é o roxo, que simboliza a penitência. Quaresma é tempo de penitência. A Igreja nos pede neste período que busquemos o recolhimento espiritual, muita oração e jejum. Não é uma imposição, mas se torna salutar viver este momento sem abusar da euforia e dos excessos. Em duas datas torna-se obrigatório abster-se de comer carne: a quarta de cinzas e a sexta-feira da paixão. Nestas duas ocasiões devemos perseverar no jejum de carne, salvo em situações de saúde, onde uma dieta prescrita por médico nos indique o consumo de carne. De todo modo, nestas datas, podemos trocar a carne de boi ou porco, ou mesmo de aves, por peixe. Ou mesmo fazermos o sacrifício de nestes dois dias não comermos carne.

Segundo o Monsenhor Jonas Abib o ato de jejuar vem da Tradição da Igreja Católica e não significa passar fome. “Jejuar é refrear a nossa gula e disciplinar o nosso comer.”(1) Mas o jejum, meus caros não cabe apenas a comida/bebida. O jejum pode ser também de ações. É importante frisar que o jejum é uma forma de penitência, é um modo de buscar a purificação do corpo e o autodomínio de nossas atitudes.

Quero nesta quaresma, assumir o compromisso de semana a semana praticar diferentes tipos de jejum. E ao longo das semanas quero partilhá-los com vocês. Que Nosso Bom Deus nos dê a graça de vivermos de verdade este tempo frutífero e abençoado, e não de tristeza e terror, como muitos dizem.

Senhor Jesus, esteja conosco nesta quaresma, ensinando-nos a jejuar, a orar e a buscar de verdade uma vida nova. Que possamos chegar ao Tempo Pascal revigorados e curados de muitos males e vícios. Que eu possa deixar o homem velho nesta quaresma e ressuscitar contigo na Páscoa, como Homem Novo, cheio de Vossa Graça, sendo luz para o mundo e sal para esta terra. Amém.

Belo Horizonte, 23 de fevereiro de 2012.

(1) ABIB, Jonas Mons. PRÁTICAS DE JEJUM. Ed. Loyola, São Paulo, 1994.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Desperta a minha fé, Senhor, Desperta!


Por Deiber Nunes Martins

Revendo em uma palestra uma cena do filme "Desafiando Gigantes" fiquei refletindo sobre a importância da fé em nossas vidas. As vezes tratamos a fé como um assunto banal, do cotidiano ou simplesmente da espiritualidade de cada um. Em um mundo cada vez menos espiritualizado, conhecer sua fé pode fazer a diferença em sua vida e na dos outros.
Fé é acreditar no que não se vê. Aprendemos muito disso na catequese, para o nosso primeiro contato com Deus. Eu não vejo Deus, mas Ele está presente em minha vida, na minha história. Assim como não vejo o ar, mas sem ele não vivo. Como se pode perceber, fé é algo mais abrangente. Fé é acreditar no que não se vê a ponto de se criar intimidade com o que é oculto aos nossos olhos. Sim, eu falo de Deus. Muitas vezes acreditamos no ar, mas não o seguimos, nem lhe somos próximos. Apenas dependemos dele, para viver.
Deus está presente em nossa história a todo o momento. Às vezes não o reconhecemos, mas certamente Ele nos vê e nos acolhe. A cada um de um jeito diferente. Depende da fé de cada um. Mas a todos com o mesmo amor. É a essência de Deus, ser Amor. Isto é fé.
Acreditamos no amor mesmo quando este nos fere de dor que parece não ter fim e ser mortal. Mesmo diante da desilusão amorosa, da decepção com quem se ama, acreditamos que há algo que valha a pena lutar, um amor que não acaba. Amor infinito é fé. Uns tem, outros... bem outros dizem que o amor acabou.
Amor não acaba, nossa fé nos diz isso. Amor nos leva até o fim. Amor amor. Não só o de mãe. Engraçado que dias atrás a repórter policial entrevistava uma criminosa que tinha no corpo tatuado o dizer: "Amor, só de mãe". Acontece que o amor não é só da mãe para com o filho/filha. Este amor é um amor sublime e também carregado de fé. Mas o amor pode ser de filho para mãe/pai, amor de irmãos, amor de amigos, amor de amantes. Amor de verdade é carregado do tempero da fé. Acredita no outro lado do amor. Quem ama, acredita. Sabe o limite do(a) amado(a). Pois está acostumado a lidar com a essência da pessoa amada. Sabe lidar com os maus e os bons momentos. Compartilha alegria e tristeza, prazer e dor, euforia e angústia. Sentimentos de quem tem fé.
A propósito, a fé nos leva a suportar a dor. Sofre, mas sofre com dignidade e de modo mais tênue quem é cheio de fé. Porque a fé nos leva a contabilizar o propósito. Na cena do filme, o treinador de um time de futebol americano incita o líder do time a carregar um companheiro nas costas por toda a extensão do campo, mais de cem jardas. Com os olhos vendados. Ele o motiva a seguir em frente mesmo com a dor. Sem ver nada, o jovem chega a linha de fundo com o companheiro nas costas, jurando ter percorrido cinqüenta jardas, que tinha sido o combinado com o técnico, aquilo que ele julgava ser capaz de fazer para seu treinador. No entanto qual a sua surpresa ao ver que tinha caminhado por cem jardas e não cinqüenta, com seu amigo nas costas. A fé deste jovem lhe fazia crer que era capaz de rastejar por cinqüenta jardas. Mas acima disso, sua fé mostrou que ele não tinha limites. E precisava encontrar seu caminho.
Muitas vezes nossa fé está adormecida. E precisa de um estalo, para acordar. A dor tem esta capacidade de despertar a fé que há em nós. Quantos testemunhos de pessoas que precisaram passar pelo martírio da dor, para descobrir a fé adormecida que tinham? Parece pouco, pensar que um sentimento fisiológico possa influenciar nossa fé e nossa espiritualidade. Mas não é. É no momento da lágrima que cai, onde reencontramos nossa esperança e o nosso desejo de que o melhor está por vir e vai chegar. Se eu não fizer da minha dor um trampolim para a cura, para o aumento da minha fé, então não terei chance. Serei engolido pelo mundo cada vez mais cético.
Senhor é preciso acordar nossa fé. Somos fracos, vacilantes e muitas vezes nos deixamos levar pelo ceticismo do mundo. Passamos por cima dos Vossos ensinamentos e pecamos. Pecamos por falta de fé. Fé viva que remove montanhas. Dá-me Fé, Senhor. Dá-me alma. Dá-me força, Senhor, para que eu possa percorrer o caminho da minha vida, com quantas pessoas Tu quiser jogar em minhas costas. Sei da dor que preciso enfrentar na caminhada. Mas sei também que sem ela, pouco provada será minha fé. E é esta certeza na tua certeza, que me move, Senhor. Acorda a minha fé. Amém.

Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Na Fria Noite

Por Deiber Nunes Martins


Cadeiras espalhadas, garrafas quebradas

Na fria noite em que nada ficou no lugar

Você se perde, devaneio, frio sei lá

Não sabemos onde isso pode parar

A loucura afinal vence o frio

O medo supera a mais torpe razão

Vencemos a sombra da noite

Mas perdemos o calor da ilusão.

Tudo começa e termina nesta noite

E deste sonho nada podemos levar

A uma voz, sombria ficaste de repente

E ao seu gesto não pude deixar de notar.

Ficou na boca o amargor

Sarado na balinha de limão

Mas nada seria como antes

Encravava em meu peito a paixão.

E você saiu pela porta que entrou

Não se termina o que não pode começar

Não se define o que não pode acontecer

E aquela fria noite, tornou-se meu ar.

Belo Horizonte, 27 de janeiro de 2012.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Aquele estranho dia que nunca chega: as chuvas


Por Deiber Nunes Martins

As chuvas têm aprontado bastante aqui em BH. Parece que já choveu mais no período que nos últimos cem anos. É chuva pra dar e vender. E por falar em vender, quem vende guarda-chuva está bem na fita. Entretanto, quem não vive desse comércio está sofrendo e não é pouco. BH virou uma imensa área de risco. Antes na chuva caía água, muita água. Hoje cai água, cai árvore, cai carro no buraco e cai prédio. Ontem caiu um no Caiçara. Tragédia. Uma morte. Anteontem, um daqueles do Buritis. Engraçado que o que ficou de pé a justiça ordenou nesta segunda que continue de pé, embargando a demolição. A justiça faz o que pensa que sabe. A chuva faz o que sabe, chove. E chove muito. Mas será que a culpa é de São Pedro?
Belo Horizonte hoje é uma cidade sitiada. Não é preciso ir muito longe debaixo de chuva pra perceber que a cidade virou um queijo suíço. Buraco pra todo lado. Dirigir à noite virou tarefa pra piloto de rally. O pior é que mesmo nas ruas iluminadas, existem idiotas que insistem em jogar o farol alto na sua cara. Aí você não enxerga nada. E não vê o buraco. Lá se vai sua roda, lá se vai sua suspensão. Aí quem fica bem na vida é o cara do alinhamento, balanceamento e suspensão. E como ganha dinheiro! Uma cidade esburacada não é culpa do santo. Aliás, sua participação na gestão das chuvas é mais que controverso. Chove por conta do clima, não do santo.
Não tem muito tempo em que eu via verdadeiros temporais em BH e a Cristiano Machado sobrevivia, firme e forte. Hoje não pode cair um chuvisco e já avisam que a avenida está alagada. Já não sabemos o que fazer! Quem mora nas regiões de Venda Nova, Pampulha e Norte, depende da Cristiano Machado pra chegar ao Centro. Com ela alagada, sobrecarrega-se a Antônio Carlos. Que pra nosso azar está em obras, por conta de um tal BRT que a Bhtrans empurrou pra gente goela abaixo, em troca do metrô de superfície e subterrâneo que resolveria a novela do transporte coletivo na cidade. A Cristiano Machado alagada é culpa de São Pedro? Não é o santo que tenta agradar as empresas de ônibus com o BRT, isso eu garanto... Também não é o santo que fez um arremedo de obras no Córrego do Onça, que insatisfeito vomita suas águas barrentas e fétidas na avenida.
Fiquei surpreso ao ver no telejornal a imagem do Anel Rodoviário completamente parado por conta do afundamento da pista na proximidade do Viaduto São Francisco. Tudo ali parece querer deslizar, desmoronar. Moradores da vila às margens ali do Anel, foram aconselhados a deixar seus barracos o quanto antes. Aborrecimento...
Avenida Nossa Senhora do Carmo com problemas! A Raja também, ali nas imediações do Hospital Madre Tereza. Tudo parece querer cair. E os pseudo-bacanas e ricos de mentirinha do Belvedere, Buritis e toda Zona Sul também aborrecidos. Sabem que se descer pro Centro, vão agarrar no trânsito. Helicóptero é pra rico com R maiúsculo e estes são poucos. A imensa maioria dos pobres mortais anda é de carro e o que é pior, cada um no seu, congestionando toda a cidade numa pura falta de planejamento urbano. São Pedro também está inocente nessa...
Portanto querer culpar São Pedro pelas águas que estão caindo é no mínimo agir de má fé, apostando numa ingenuidade que não cola mais num mundo antenado às redes sociais. A chuva é um somatório de questões climáticas e sempre é esperada para esta época do ano. Acontece, que a prefeitura não se prepara para o período, ocupada demais com as briguinhas políticas PT e PSDB. Como vivemos num país banhado pelo mar da democracia, é de se presumir que seria papel dos nobres vereadores anteverem-se ao problema das chuvas, propor e aprovar medidas concretas e urgentes antes do período chuvoso. Mas estão eles todos preocupados com o salário que seus sucessores (?) receberão em 2013. E quando tomam projetos de planejamento urbano, onde poderiam agir diretamente na problemática, é para defenderem a verticalização e os interesses de empreiteiras, muitas delas financiadoras de campanhas. A culpa não é do santo e sim da porcaria de sistema democrático que temos.
Chegará o dia em que sofreremos as tragédias das chuvas e responderemos à altura nas urnas. Votando conscientemente para prefeito e vereadores que estejam de fato compromissados com a cidade. Chegará o dia em que teremos uma cidade sem áreas de encostas e morros, nem córregos encaixotados em caixas de concreto prestes a estourarem tão logo caiam as primeiras gotas de chuva. Chegará o dia em que voltaremos a ter terra e asfalto e não só o asfalto nas ruas, fazendo com que as águas penetrem no solo. Chegará o dia que BH voltará a ser a capital dos botecos e não dos buracos, como vem sendo.
Chegará esse estranho dia. Mas está demorando...

Belo Horizonte, 03 de janeiro de 2012.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz Ano Novo!


Por Deiber Nunes Martins

2012 chegou! Hora de executarmos tudo aquilo que planejamos nos últimos momentos de 2011. É chegada a hora de ser feliz. E é agora! A maravilha do ano novo está na possibilidade enorme de se fazer a diferença. A metade do ano costuma dar preguiça e o final deste nos faz esperar o início do que virá, para mudarmos alguma coisa. O começo do ano então é o momento!

Momento de se começar novos hábitos. Abolir os vícios, os velhos hábitos. Construir novas pontes, duradouras e sólidas em nossos relacionamentos. Reconstruir os corações partidos da nossa vida. O ano novo é o momento! Visitar um amigo, saber como está, desejar fazer de cada dia do novo ano um novo dia de fato.

Vivemos cercados de coisas para concluir, projetos a executar, que nunca o fazemos! O ano novo é o momento. Preciso fechar cada porta que me leva às tentações. Muitas vezes são projetos mal terminados. A vida é o projeto de Deus para cada um de nós. E dentro deste projetão que é a nossa vida, estão os projetos menores, os subprojetos, que perpassam nossas vidas. Talvez um curso, uma viagem, um desejo de vida, algo que queremos dar seqüência, mas deixamos pra depois. O ano novo é agora! É o momento!

Neste 2012 eu desejo pra mim, e pra você, meu irmão, minha irmã, um ano produtivo. Que possamos concluir nossos projetos em andamento, e iniciar outros. Uns talvez ambiciosos, como a compra de uma casa, ou uma total mudança de vida; outros de médio porte e outros pequeninos, como uma simples arrumação de quarto. Sim, este pode ser o projetinho a terminar na vida de muita gente. Mas é nos projetinhos que vislumbramos a vida. Todas as nossas possibilidades. É arrumando o quartinho bagunçado no primeiro dia do ano, que arregaçamos as mangas para executar os projetões que Deus tanto espera de nós. É arrumando o meu coração bagunçado, que eu posso ajudar o outro a arrumar o dele também. Tudo tem seu momento, sua hora. O ano novo está ai. A hora é agora. Que Deus nos dê um ano novo cheio de saúde, de harmonia interior, de muito trabalho e também de muitas conquistas! Precisamos conquistar muito em 2012. Que assim seja!

Meu bom Deus me ajude no dia de hoje, a arrumar o quartinho bagunçado do meu coração. Ajuda-me a colocar em ordem meus sentimentos, minhas relações, a minha vida! Ajuda-me a perdoar quem me ofendeu, e a pedir o perdão pra quem ofendi. Ajuda-me a abolir os maus hábitos, todos eles. Ajuda-me a ser bom, se eu não sou. Ajuda-me a ser melhor, se já sou bom. Ajuda-me a ser melhor esposo, melhor pai, melhor filho, melhor irmão, melhor amigo, melhor colega de trabalho, melhor cristão. São nestes pequenos projetos que a vida se renova. Se faz nova! Como este ano que aí está. Obrigado, Senhor, por começar este 2012. Louvado seja! Amém!

Belo Horizonte, 01 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

As Dores do Caminho

Por Deiber Nunes Martins

Um grande desafio à nossa humanidade é lidar com o sofrimento. Quando a dor bate à nossa porta é o momento onde enfrentamos diretamente nossos medos e nossas imperfeições. É grande a tentação dos que querem justificar a grosseria, a falta de caridade, na dor que está sentindo. E muito maior ainda a tentação dos que querem culpar alguém ou a si mesmo pela dor. Começo agora a falar sobre o tema, e espero concluí-lo em oportunidade fortuita.

Há cerca de um mês, venho sentindo dores de cabeça, dores na nuca e dores inexplicáveis pelo corpo. No começo relutamos em procurar ajuda, eu pelo menos sou assim. Prefiro agüentar a dor a ouvir palpites errados que podem me levar a preocupações exageradas. Pode ser complicado partilhar a dor mesmo com quem está próximo a você, pois numa ocasião de zelo, talvez esta ou estas pessoas podem até prejudicar, ao invés de ajudar. É comum os flagelos da auto-medicação e das loucuras a que o sofredor é submetido. Muitas vezes para agradar. Por isso tudo, sou relutante em buscar ajuda de imediato. E também conhecendo a saúde no Brasil, prefiro consultar com um médico quando o bicho de fato está pegando porque se não eles inventam uma porção de coisas, uma porção de exames e aí, sabe-se lá que conclusões chegarão e quão precipitadas podem ser.

Mas estas dores não me deixaram em paz e então visitei um médico perto de casa, que sem muito me examinar concluiu resoluto: virose. Receitou analgésicos e me garantiu em três dias estar curado. Passaram-se os três dias. Passaram-se quase quinze e resolvi procurar outro médico. Este outro médico mais detalhista, me examinou e me fez um caminhão de perguntas, algumas que tive até dificuldade de responder, por não conseguir puxar da memória. Ao final da consulta, receitou-me um medicamento que até fez efeito por alguns dias, mas eis que a dor está de volta. E às vezes até mais forte.

Sabe quando você não sabe o que fazer? Pois é, é como me sinto, diante dessa dor. E quando não sabemos o que fazer, acabamos por pedir ajuda a quem está próximo. Primeiro, as pessoas da família. A recomendação é unânime: procurar outro médico, que o problema é sério. Problema sério. Problema quando vem sozinho já é problema. Imagina quando vem acompanhado do “sério”! Se você não tem estrutura, desespera. Eu, com isso, consigo muitas vezes me colocar no lugar das pessoas. Muitos de nós nos culpamos por tudo, somos inseguros, imaturos, com mania de perseguição. Se alguém se volta para uma pessoa deste tipo e diz que o problema é sério, aí é que será mesmo. Pois a pessoa terá um troço. Recuperando do baque do “problema sério”, vamos aos amigos. E quando se recorre aos amigos, o mínimo que se espera é um vago desejo de melhoras. Talvez, com alguma sorte, um carinho, um afago e com mais sorte ainda a resolução do “problema sério”. Mas, dos amigos verdadeiros, basta que estejam com a gente, sofrendo junto, mesmo sem sentir, apenas pra dar o “apoio moral”.

Ledo engano. Pelo menos pra mim. Ao longo dos dias, o que mais escutei dos amigos, foi para tomar cuidado que pode ser sério. Que DEVE ser sério. Afinal, com dor de cabeça não se brinca. Eu não brinco com dor nenhuma! E ao final de cada conversa, porque será que a minha cabeça dói ainda mais?

Um(a) amigo(a) de verdade, precisa entender que não precisa entender do problema do amigo, para ajudá-lo. E que muitas vezes, o amigo só partilha o sofrimento, porque está se sentindo sozinho diante dele. Então é preciso perceber, o sofrimento bateu à porta do meu amigo. Eu não posso pedir pro sofrimento sair da casa dele e ir se alojar na minha casa, mas eu posso ir à casa do meu amigo, ficar lá em silêncio, com ele. Às vezes a companhia silenciosa vale mais que a companhia falastrona. E quando se lida com a internet, há ainda mais um detalhe: a web não mede o silêncio corretamente. Nela, o silêncio é como fleuma, ninguém está se importando, todos se calam. Então os amigos precisam se dizer, mas se dizer com amor. Pra não assustar ainda mais quem sofre. Se eu não posso dar carinho, conforto e consolo a meu irmão que sofre, que pelo menos eu respeite a sua dor e trabalhe em mim, uma maneira de quebrar o meu egoísmo. E é tão difícil!

Muitas vezes chegamos perto de quem tem sofrimento maior que o nosso e derramamos todas as nossas dores, como se fosse ele/ela, um coletor de lixo, à espera dos nossos lixos. Lidamos com o problema como se ele fosse um lixo, um entulho. Mas o problema nada mais é que uma oportunidade de crescimento à nossa porta. Sofrer não vai te fazer bem, mas certamente, lhe fará ser melhor com você e com os outros.

Quando eu olho minha dor, eu preciso estar preparado pra saber que a dor do outro, ainda pode ser maior que a minha. Mas quando está doendo a gente murmura porque não quer estar sozinho diante da dor.

Então, diante desta dor persistente, meu Senhor, eu digo que estou aprendendo com ela. Aprendendo a entregar a Ti todo o meu fardo e não ao meu irmão, aos meus amigos. Eu preciso respeitá-los, pois não sei qual o momento em que vivem. Pai de amor e de bondade, eu te entrego nesta madrugada, a dor que sinto, toda dor que sinto. E vos louvo, pela dádiva de colher frutos também em minhas misérias. Eu não sei como será amanhã cedo, Senhor. Mas sei que contigo, certamente eu poderei caminhar com esta dor. Muito obrigado, meu Deus!

Belo Horizonte, 20 de dezembro de 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ENEM, a próxima estação


Por Deiber Nunes Martins

G'day mate!

Caríssimo(a), que Deus abençoe sua jornada e te mantenha perseverante rumo ao teu sonho de passar no ENEM e ter sua vaga garantida em uma boa universidade. Dica de quem já viveu tudo isso: mantenha a calma e não deixe nada te abalar, nem mesmo a dificuldade da prova.

Eu tentei a UFMG no tempo do Vestibular (ENEM ainda não tinha sido inventado) por 3 vezes. Nas duas primeiras estava despreparado, mas na 3ª coloquei como estação de minha vida, a matrícula na UFMG. E quando você define sua próxima estação de parada, você toma o fôlego da locomotiva, nada te pára. Obviamente, uma locomotiva não chega sozinha, precisa de um condutor e este só pode ser Jesus. Mantive meu foco em Deus e deixei Ele me guiar pelas trilhas tortuosas rumo a Universidade.

No caminho, muitas pedras. Um assalto, onde reagi e quase fui morto pelos assaltantes, me tirou os livros do cursinho e meu caderno com todas as anotações preciosas para as provas. O foco em Jesus, me fez perceber que não conseguiria sozinho, que precisava jogar fora todos os meus orgulhos e vaidades tolas e recorrer aos colegas que ali no cursinho eram também meus concorrentes. Quando você está em Cristo você está aberto a amizade, a acolhida. Seus gestos não são falsos e as pessoas reconhecem autenticidade em suas ações. É nessa hora que a cada pessoa que passa por seu caminho, avista o farol de Jesus, a estrela de Belém em sua testa. Então, mesmo aqueles que concorriam a mesma vaga de Administração Noturno comigo, me ajudaram emprestando livros e cadernos.

Mas ainda assim, as pedras no caminho sempre aparecem. Lembro que na semana do vestibular, a namorada que tinha, resolveu romper comigo. Então no dia da prova de primeira etapa, fui de coração partido fazê-la. Mas o foco firme no meu Guia: o Bom Jesus.

Na segunda etapa, meu inimigo mortal parecia ser a matemática. E era uma terrível prova aberta, putz que loucura! Parecia que eu não sabia nada. Mas meu foco estava ali, firme. Sabia que tinha feito as outras provas de modo perfeito e sabia que nada podia deter a minha locomotiva. Segui em frente, mesmo sendo um dos últimos a entregar uma prova com 3 (três) questões em branco. Detalhe: a prova tinha 8 (oito) questões. Quando entreguei ao monitor minha prova de matemática, parecia que estava sem cor, sem pulso e sem qualquer sinal vital aparente. Eu parecia estar fora de mim.

Minha cor voltou quando ao sair do prédio do ICB onde fazia a prova, vi uma multidão saindo junto comigo, parecendo um batalhão ao final de uma terrível batalha: cansaço, choro, desolação, decepção, frustração. Deus do Céu! Eu estava bem, todos estavam no mesmo barco que eu.

A partir dali, a certeza da aprovação, me fez caminhar em paz. A certeza da aprovação naquele funil me fez bater o olho na lista dos aprovados e ver o meu nome antes de qualquer outra coisa. E a sensação de ver o seu nome na lista dos aprovados em vestibular é uma das coisas mais lindas que podemos ter na vida. Enfim, saí dali sem rumo, vitorioso, feliz. Prudente como sempre procuro ser e já fugindo dos amigos que me caçavam com a máquina de raspar cabeça nas mãos, fui ao salão e declarei decidido ao meu barbeiro: rapa tudo, pode passar a zero. Ele, acreditando estar diante de alguém que perdeu o juízo disse:

"Tudo bem, o freguês sempre tem razão."

No que respondi de bate-pronto:

"Fica tranquilo, rapaz! Passei no vestibular!"

Eu queria estar de cabeça raspada e de alma lavada. Fui até a Igreja onde sempre rezava e agradeci copiosamente aquele presente do Senhor em minha vida. E nessas horas, mais que em todas as outras, Deus é a melhor companhia que alguém pode ter. Procuramos a Deus na hora do infortúnio, do medo, da angústia e seu Amor, seu carinho para conosco é inquestionável. Mas só conhecemos de fato a imensidão deste Amor, quando na hora da alegria, buscamos a Ele em primeiro lugar para agradecer. E em seguida vamos em cada santo ou santa com o qual pedimos intercessão, agradecendo. Foi o que fiz.

Deus foi tão bom, que colocou meu pai, minha mãe e meus irmãos no meio do quintal de casa à minha espera. Para que ao se depararem com o filho chegando com a cabeça raspada, pudessem pular de alegria e soltarmos juntos aquele grito de vitória guardadinho na garganta por todo aquele tempo...

Nesta hora, na hora da vitória, da comemoração, na hora em que o trem chega a sua estação, os pedregulhos, as dores, as fadigas e todas as dificuldades do caminho se tornam tão pequenas que nos vemos fortalecidos o suficiente pra reviver tudo aquilo de novo.

E é esta força que nos faz seguir, estação a estação, destino a destino. É uma força espiritual, não vem da gente, mas vem Daquele que muito nos ama e que grita conosco a nossa alegria, a nossa felicidade: Jesus!

É meus caros amigos, a cada vitória nossa, a cada conquista, Deus faz uma festança no Céu.

Belo Horizonte, 19 de outubro de 2011.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Cuca e a Categoria de Base do Galo



Por Deiber Nunes Martins

O plantel do Galo é bom e ouso dizer até que no momento, é melhor que o dos nossos rivais. Estava faltando profissionalismo. Cuca de início vai conseguir motivar os caras. Quem estava de sacanagem com o Dorival vai querer dar um "sanguinho" a mais, jogador que machucar após o estouro da regra 3, vai segurar a onda até o final pra fazer média com o treinador, enfim, as coisas vão se acalmar. Até a próxima crise chegar, a diretoria insistir em morrer abraçada com o Cuca, e o suplício do torcedor voltar... Minha torcida, é que esta crise venha no início do ano, antes das finais do Mineiro, pois aí dá tempo de consertar.

Torço ainda, para o Cuca fugir da mesmice e ter uma visão mais ampla sobre o Atlético. Assim, ele perceberá boas oportunidades na categoria de base e preparará os meninos para entrarem no grupo, nos momentos propícios, e não em verdadeiras fogueiras. Este lateral direito Roger, por exemplo. É o cara pra resolver este problema crônico do Galo. Porém, precisa ser preparado. É o cara pra entrar no time nas primeiras rodadas do ano que vem, no Mineiro, ganhar confiança e aí assumir a titularidade. Pra isso, o técnico tem que ser inteligente. Tudo bem, Patrik não dá mais. Mas o Mancini não joga no meio ou ataque nem em time de várzea. Então, que o Cuca exija que ele jogue como ala, pela direita. Assim, podemos usar os três zagueiros, que pra mim devem ser Lima, Leo Silva e Réver. Luis Eduardo e Werley são boas opções para o banco. E ano que vem, tragam de volta o Welton Felipe! Ao mesmo tempo em que a dupla de zaga campeã da Taça BH seja preparada pra ascender aos profissionais. Os meninos são bons. Tomara que não sejam fritados. Na lateral esquerda, vamos quebrar a cabeça com o que temos de momento. Pensemos em preparar o Pavão, menino da base, que fez uma boa Taça BH para o ano que vem.

No meio, Felipe Soutto volta e ao lado dele, tanto faz Toró, Richarlysson ou Serginho. Tenho preferência pelo último, por ser quase cria da casa, e ter mais compromisso com o Glorioso. Na frente, seria interessante ver Dudu Cearense e Daniel Carvalho, se motivados estiverem. Caso contrário, a porta da rua é a serventia da casa. Guilherme pode também ser uma alternativa interessante, afinal foi jogando no meio pra frente, que ele se destacou na raposa.

E no ataque, André provou ser um atacante de talento, mas frio. Dificilmente vingará no Galo. Todavia, se conseguirmos achar um "Marques" pra ele, se torna artilheiro ainda desse campeonato. Talvez a dupla Magnata e Berola, um em cada tempo, possam não dar um "Marques", mas se aproximar disso. Obina também é uma boa opção para ser a sombra de André. A turma da base, Paulinho, Bernard, Leleu e alguns outros da frente, podem ser aproveitados sem compromisso em jogos da Sul Americana ou em determinados momentos do Brasileirão, entrando no fim das partidas. A responsabilidade sobre eles é bem menor que sobre a turma da defesa, assim, a preparação pode começar ainda este ano.

Finalizo sugerindo a diretoria trazer de volta o Nicão, que está escondido, acho que no Bahia e pode render muito neste time do Galo. Quanto ao Giovanni Augusto, o cara é bom, mas precisa saber o que é o Glorioso Galo e sua maravilhosa torcida, pegando bagagem em outros times. Como o Brasileirão está bem adiantado, talvez uma passagem pela Série B lhe faça voltar com todo gás em 2012. E quanto a eterna promessa Renan Oliveira, é o tipo de jogador que falta ao América. Não sei se ele jogou mais de seis vezes no Galo, caso não, pode ajudar a salvar o Coelho da degola. E se consagrar lá. No Galo acho que pra ele não dá mais.

Enfim, é triste ver entrar ano e sair ano e o Galo nesse marasmo, envolto em crises e mais crises. Todavia, sou um dos poucos a estarem otimistas com o Cuca. Espero que dê resultado. Espero também que a parte da imprensa mal intencionada com o Clube coopere e não plante crise logo no primeiro revés do novo treinador atleticano. Que Deus possa abençoar esta torcida apaixonada que não existe em lugar nenhum da Terra e possamos ter algum alento doravante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Matrimônio, o Sacramento da Criação

O casamento é uma entrega mútua de amor
Por Pe. Paulo Ricardo

A "Teologia do Corpo" faz parte dos ensinamentos proferidos pelo saudoso Papa João Paulo II; é um conjunto de 129 catequeses que dizem respeito ao amor humano.

Nós nos voltamos para o dom extraordinário da Santa Missa, na qual Deus se entrega por nós. O que a Eucaristia tem a ver com o matrimônio? O saudoso Pontífice polonês viu, com clareza, a existência de um nexo, uma ligação entre a comunhão que vivemos na Eucaristia e no ato conjugal, unindo ambos.

Nas 129 catequeses, João Paulo II nos fala de duas uniões: O casamento de Adão e Eva, no livro de Gênesis, e as núpcias do Cordeiro, no livro do Apocalipse, no casamento em que Deus se une à humanidade. Hoje os casamentos duram pouco, pois logo se deterioram em função da cobrança. Qual é a cobrança no casamento? A felicidade; o casamento está mal porque essa cobrança é injusta. Ninguém é capaz de fazer o outro feliz; fomos feitos para Deus.

Santo Agostinho nos recorda: "O coração é inquieto até que se encontre em Deus". Na terra, somos como uma pessoa que viajou à noite toda, coloca a cabeça de um lado e de outro sem ter como repousá- la. A vida neste mundo é uma viagem, na qual nós não temos onde repousar a cabeça. Não podemos transformar o outro no porto seguro, pois somos companheiros de viagem.

Papa João Paulo explica que, antes da vinda de Jesus, o matrimônio era uma espécie de sacramento da criação. O homem e a mulher ajudam nessa criação, no ventre da mulher acontece o milagre de criar do nada a alma do ser humano [com a graça do Espírito Santo]. A Igreja não é contra o sexo; ela aprecia tanto a sexualidade e dá tanto valor a isso que lhe dá um valor sagrado. Por sua natureza, o sexo tem algo de divino, mas isso ainda não é o suficiente para torná-lo sacramento.

O casamento entre dois batizados é um sacramento, porque é uma participação na redenção, é salvífico porque é uma entrega. É a entrega da sua vida para fazer com que o outro chegue à felicidade, que é Jesus. Você não é a fonte da felicidade, mas deve entregar a sua vida para alcançar a felicidade, um se faz sacrifício ao outro.

O ato da união sexual entre o marido e a mulher é prazeroso, faz com que ambos fiquem satisfeitos, mas também é uma entrega. O esposo entrega o seu corpo à esposa, e ela se entrega ao esposo, é uma doação. Essa entrega em Cristo é um sacramento, não simplesmente pela criação de Adão e Eva, mas no ato da cruz.

Quando pagãos se unem no casamento participam da criação. Mas, quando batizados se unem em matrimônio eles participam da Igreja. Essa união maravilhosa de entrega mútua entre Cristo e a Igreja se torna visível na entrega pela sua esposa e pelo seu esposo.

Na Eucaristia vivemos o grande mistério em que o Esposo [Nosso Senhor Jesus Cristo] entrega o Seu Corpo pela Esposa [Igreja]. O Esposo dá tudo o que é por amor. O matrimônio é uma "cruz", pois é uma entrega de amor. O mundo perdeu a noção do amor, ele não é subjetivo e pessoal.

Quando os namorados se unem sexualmente, muitos criticam a Igreja dizendo que julgamos o amor deles, mas isso não é amor, é egoísmo. Nós católicos sabemos que amor não é sentimento, mas existe um sentimento que acompanha o amor, pois o amor é uma entrega e não é um sentimento subjetivo, pois, você pode se sentir bem tomando um veneno, como as drogas. O mundo moderno quer “viajar” no amor, quer se sentir bem, mas o sentimento pode ser gostoso e profundamente egoísta.

O sexo é uma entrega total, o corpo fala, pois é uma linguagem. Se uma pessoa diz: "Eu te amo" – com os lábios cerrados e com gestos negativos – você vai acreditar no corpo ou na palavra dela? O corpo, na relação sexual entre marido e mulher, diz: "O meu corpo é todo seu". Mas quando o sexo está no namoro não há entrega total; quando cada um vai para sua casa é uma mentira. Somente no matrimônio, na entrega para sempre, é que ocorre a entrega total, isso é redentor, sacramento que Jesus nos revelou na cruz.

Você vive uma crise conjugal? Olhe para a cruz no sacrifício do calvário e peça a Deus a força de se entregar, em derramar o sangue pelo (a) seu (sua) esposo (a) e filhos.

Papa Bento XVI afirmou: "O amor-ágape deve buscar forças no amor-erótico", ou seja, no amor que temos. Ao desejar Deus, podemos usar nossos afetos. O amor não é só sentimento, mas ele se expressa no desejo.


Fonte: http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=12433

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Rompa com as tradições mortas para seguir Jesus

Por Pe. Bantu Mendonça

Estamos diante de dois fatos importantíssimos, como cristãos somos chamados a seguir as pegadas do Mestre: “Tu vens e segue-me”. A opção de seguir Jesus não é minha iniciativa pessoal. É Ele quem me chama e me consagra para a missão. Depois que Ele me chamou, eu – sabendo das exigências da missão – devo responder ‘sim’ incondicionalmente. Ora, vejamos o que se segue:

Primeiro, um escriba se aproxima afirmando sua determinação de seguimento incondicional a Jesus: “Mestre, estou pronto a seguir o senhor para qualquer lugar aonde o senhor for”. A resposta de Jesus Nazareno é uma advertência para uma tomada de posição consciente quanto à opção pelo Seu seguimento. Apela para o abandono total de si mesmo e renúncia aos bens materiais: “As raposas têm as suas covas, e os pássaros, os seus ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde descansar”.

Quem realmente quer seguir a Jesus Cristo deve abandonar e renunciar a tudo e confiar-se somente nas mãos providentes de Deus Pai. Jesus, ao afirmar “o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”, quer nos ensinar e levar a aderir ao abandono total nas mãos do Pai.

Segundo, é o caso de um dos discípulos que quer ganhar tempo e pede que Jesus permita enterrar o pai: “Senhor, deixe-me primeiro ir enterrar meu pai”.. “Pai”, aqui, não se aplica no sentido biológico, mas na permanência das tradições judaicas dos seus antepassados, presos à Lei que – em vez de salvar e libertar o homem – mata e escraviza.

Para nós, é estarmos preso às nossas idéias egoístas, no orgulho, na vaidade, na preguiça, no individualismo, na nossa tibieza, enfim, nas inúmeras desculpas que nós damos no nosso dia a dia para não nos consagrarmos ao ministério do Senhor como discípulos e missionários d’Ele.

Do mesmo modo que Jesus insistiu com esse homem, assim Ele insiste conosco dizendo:“Deixe que os mortos sepultem os seus mortos e tu vens e segue-me”. O chamado de Cristo não está no futuro, mas sim no presente. O tempo é hoje e a hora é agora! Deixe que os “espiritualmente” mortos cuidem dos seus próprios mortos.

Há pessoas que vivem esperando as coisas se ajeitaram para depois servirem a Deus. Nós, meu irmão, não temos nem o poder nem o dever disso. E tampouco o direito de dizer ‘não’, portanto, levante-se e siga a Jesus. Ele é o seu Deus e o seu Senhor!

Pare de dar desculpas “furadas”! Quero que saiba que, quando obedecemos a um chamado de Deus, Ele é poderoso para suprir nossas necessidades e nos orientar em toda espécie de dificuldades relacionadas ao Seu chamado para nossa vida.

Rompa, pois, com todas as barreiras que vedam os seus olhos para não enxergar o projeto de Deus sobre você. Entenda que o “seguir a Cristo” significa uma ruptura pura e simples com as antigas tradições mortas que não favorecem a vida e aderir ao amor vivificante do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Fonte: Homilia Diária de 27.06.2011 in http://blog.cancaonova.com/homilia/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

As dez mais de minha playlist nacional

Por Deiber Nunes Martins

10. Ira! – Envelheço na Cidade (Álbum “Vivendo e não Aprendendo” – 1986)

Envelheço na Cidade

Mais um ano que se passa

Mais um ano sem você

Já não tenho a mesma idade

Envelheço na cidade

Essa vida é jogo rápido

Para mim ou pra você

Mais um ano que se passa

Eu não sei o que fazer

Juventude se abraça

Se une pra esquecer

Um feliz aniversário

Para mim ou pra você

Feliz aniversário

Envelheço na cidade

Feliz aniversário

Envelheço na cidade

Meus amigos, minha rua

As garotas da minha rua

Não sinto, não os tenho

Mais um ano sem você

As garotas desfilando

Os rapazes a beber

Já não tenho a mesma idade

Não pertenço a ninguém

Juventude se abraça

Se une pra esquecer

Um feliz aniversário

Para mim ou pra você

Feliz aniversário

Envelheço na cidade

Feliz aniversário

Envelheço na cidade

“Envelheço na Cidade” é meu “Happy Birthday”, minha música predileta de aniversário. Impressionante como uma banda quase punk como o “Ira!” conseguiu esta música com letra tão real e marcante. Improvável pensar que Edgar Scandurra pudesse dar vida a esta música e ele deu.

Muitas vezes, as pessoas comemoram o aniversário não como a dádiva de se ficar mais velho, mas justamente pela esperança de esquecer este fato. Muitos comemoram orgulhosos, por ter um dia do ano, reservado para si.

Mas há quem “comemore” com esta música, o amor perdido. E na verdade a sua essência está aí, em se contar o tempo passado sem o amor que ficou para trás. É uma música de pessoas apaixonadas, vítimas de amores que não deram certo e que precisam dizer pro mundo que estão bem, que superaram, que estão felizes. E então reservam a data “mais um ano sem você”, como se o amor se resumisse na pessoa perdida, não amor não realizado.

Gosto muito de ouvir “Envelheço na Cidade” como uma música-protesto à hipocrisia das relações, às falsidade, os “tapinhas nas costas”, aquela coisa descompromissada que muitos insistem em chamar de amizade.

9. Lulu Santos – Eu sou Outro Você (Álbum “Liga Lá” – 1997)

Eu Sou Outro Você

Tempo é arte, foi o que eu aprendi

Não é dinheiro ou outra coisa que se conte

É uma outra dimensão

Toda vida vive da luz do sol

Que se faltasse tudo então pereceria

Foi o que eu aprendi de tanto ver se repetir

Que anestesia, e eu já nem sentia, ia me destruir

Mas não aconteceu, estou aqui...

Toda vida, eu quis tanto querer

Como se não bastasse o que já me cabia

Na esfera emocional

Na verdade eu sou o outro você

Tanto que enxergo em ti o que em mim não veria

Foi o que eu aprendi de tanto ver se repetir

Que anestesia, e eu já nem sentia, ia me destruir

Mas não aconteceu, estou aqui...


Esta música é de uma profundidade ímpar. Soa em nossos ouvidos como uma reflexão de vida e na verdade ela mostra como nos cercamos de pessoas que se assemelham a nós. Talvez seja por isso que as pessoas diferentes são mais solitárias que as medíocres, pois têm dificuldade em encontrar seus semelhantes.

Esta canção fala sobre a mesmice do nosso tempo, as ambições, o consumismo e coisas que nos sufocam e até nos consomem se damos espaço. Os versos “Na verdade eu sou outro você/ Tanto que enxergo em ti o que em mim não veria” me impressionam porque o outro é muitas vezes como o nosso reflexo no espelho, de tão anestesiado que está pela nossa convivência.

8. Legião Urbana – Quase sem Querer (Álbum “Dois” – 1986)

Quase Sem Querer

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso

E ainda estou confuso só que agora é diferente:

Estou tão tranquilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria

Era provar pra todo o mundo

Que eu não precisava provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços pra você juntar

E queria sempre achar explicação pro que eu sentia.

Como um anjo caído fiz questão de esquecer

Que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.

Mas não sou mais

Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei porquê

Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê

E eu sei que você sabe quase sem querer

Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito

O infinito é realmente um dos deuses mais lindos.

Sei que às vezes uso palavras repetidas

Mas quais são as palavras que nunca são ditas?

Me disseram que você estava chorando

E foi então que percebi como lhe quero tanto.

Já não me preocupo se eu não sei porquê

Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê

E eu sei que você sabe quase sem querer

Que eu quero o mesmo que você

Quem viveu os anos 80, 90 de verdade, tem Legião Urbana em sua playlist. Conhecida como a banda que marcou a geração da qual faço parte. “Quase sem Querer”mostra um pouco da dificuldade em ser incompreendido. Sempre me vejo nesta música, justamente dificuldades que meu temperamento me oferece. Quase ninguém vê o que vejo e isto é uma constante. É angustiante estar no olho do furacão muitas vezes e ter de tomar decisões que nem sempre me julgo capaz de tomar. Mas a vida é feita de erros e acertos e precisamos seguir em frente. Sem dúvida alguma, esta música é um dos meus hinos.

7. Lulu Santos – Tempos Modernos (Álbum “Tempos Modernos” -1982)

Tempos Modernos

Eu vejo a vida melhor no futuro

Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia

Que insiste em nos rodear

Eu vejo a vida mais clara e farta

Repleta de toda satisfação

Que se tem direito

Do firmamento ao chão

Eu quero crer no amor numa boa

Que isto valha pra qualquer pessoa

Que realizar

A força que tem uma paixão

Eu vejo um novo começo de era

De gente fina, elegante e sincera

Com habilidade

Pra dizer mais sim do que não, não não

Hoje o tempo voa, amor

Escorre pelas mãos

Mesmo sem se sentir

Que não há tempo que volte, amor

Vamos viver tudo o que há pra viver

Vamos nos permitir

Outra pérola do Lulu é esta música. “Tempos Modernos” fala da esperança na juventude, nas nossas reais chances de mudar o mundo. É um convite a aproveitar a vida, se permitir. Quantos jovens hoje andam por aí, deprimidos, trancados no quarto enquanto a vida pede passagem, indulgente com nossos erros e benfazeja aos acertos. Sem dúvida, Lulu Santos fez desta música, um hino à juventude.

6. Almir Sater – Ando Devagar

Ando Devagar

Ando devagar porque já tive pressa,

E levo esse sorriso, porque já chorei demais,

Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,

Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou

Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,

O sabor das massas e das maçãs.

É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz

Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida, seja simplesmente

Compreender a marcha, ir tocando em frente,

Como um velho boiadeiro, levando a boiada

Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou,

Estrada eu sou, conhecer as manhas e as manhãs,

O sabor das massas e das maças,

É preciso amor pra puder pussar, é preciso paz

Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,

Um dia a gente chega, no outro vai embora,

Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si

Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz,

conhecer as manhas e as manhãs,

O sabor das massas e das maças,

É preciso amor pra puder pussar, é preciso paz

Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa,

E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,

Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si

Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz

Talvez seja esta a letra mais bonita de toda a música brasileira. E mais significativa também. A vida é um aprendizado. Se no começo andamos aos atropelos, o sofrimento, as marcas da vida vão nos ensinando a parar, a recomeçar e a seguir num ritmo mais moderado. A experiência é a nossa história de vida, tudo o que levamos conosco ao longo do caminho. É ao longo da jornada também que vemos nossa soberba ser vencida pela humildade de se reconhecer sabedor de nada. Pois assim, de fato, experimentamos todos os sabores da vida, vivenciamos todas as emoções, sem o orgulho próprio da nossa imaturidade. Esta música, como toda sua cadência, todo o seu ritmo, mostra como a vida deve ser levada sem atropelos, aproveitando cada dia como se fosse o último e aprendendo dia a dia a ser feliz hoje.

5. Barão Vermelho - Meus Bons Amigos (Álbum “Carne Crua” – 1994)

Meus Bons Amigos

Meus bons amigos, onde estão

Notícias de todos quero saber

Cada um fez sua vida de forma diferente

Às vezes me pergunto: Malditos ou inocentes?

Nossos sonhos, realidades

Todas as vertigens, crueldades

Sobre nossos ombros aprendemos a carregar

Toda a vontade que faz vingar

No bem que fez pra mim

Assim, assim, me fez feliz, assim

O amor sem fim

Não esconde o medo

De ser completo e imperfeito

Meus bons amigos, onde estão

Notícias de todos quero saber

Sobre nossos ombros aprendemos a carregar

Toda a vontade que faz vingar

No bem que fez pra mim

Assim, assim, me fez feliz, assim

O amor sem fim

Não esconde o medo

De ser completo e imperfeito.

Um dos expoentes do rock nacional brasileiro, o Barão Vermelho tem algumas músicas que me fazem pensar muito. “Meus Bons Amigos” é uma delas. Retrata como nos distanciamos dos amigos, das pessoas que gostamos, com o passar do tempo. E é assustador perceber que muitas vezes nós somos culpados por isso.

Seja por medo, timidez ou mesmo por nos faltar confiança, deixamos de fazer a coisa certa, fazer a diferença na vida dos outros. Talvez o momento em que eu viva, de estar perdendo a fé nas pessoas, na capacidade de mudança, talvez este momento um tanto quanto sombrio, esteja me fazendo refletir sobre os valores básicos da vida. Amizade é um deles. Mas é muito difícil ser amigo hoje em dia. Infelizmente estamos perdendo a capacidade de compreender que amigo não é só aquele que pode nos fazer um favor. Estamos deixando a falta de tempo e as seduções do mundo moderno nos dominar a ponto de não curtirmos mais a companhia das pessoas queridas, sem alguma coisa estar por trás disso. De positivo, fica a esperança em nossa capacidade de virar o jogo. Só depende da gente. Mas é preciso dar o primeiro passo...

4. O Rappa - Rodo Cotidiano (Álbum “O Silêncio que Precede o Esporro” – 2003)

Rodo Cotidiano

Ô Ô Ô Ô Ô My Brother (4x)

A ideia lá comia solta

Subia a manga amarrotada social

No calor alumínio

Não tinha caneta nem papel e uma ideia fugia

Era o rodo cotidiano

Era o Rodo cotidiano.

O espaço é curto quase um curral

Na mochila amassada uma quentinha abafada

Meu troco é pouco É quase nada (2x)

Ô Ô Ô Ô Ô My Brother (4x)

Não se anda por onde gosta

Mas por aqui nao tem jeito todo mundo se encosta

Ela some ela no ralo de gente

Ela é linda mas não tem nome

É comum e é normal

Sou mais um no Brasil da Central

Da minhoca de metal que corta as ruas

Da minhoca de metal

Como um Concorde apressado cheio de força

Voa, voa pesado que o ar

E o avião, o avião, avião do trabalhador

Ô Ô Ô Ô Ô My Brother (4x)

Ô Ô Ô Ô Ô My Brother (4x)

Um diário no front da batalha de classes no Brasil. “Rodo Cotidiano” tem um pouco disso. A discrepância entre os mais ricos e os mais pobres mostra vários países num só Brasil. E é no relato sobre o transporte coletivo que conhecemos este Brasil marginalizado, feio e pobre, onde o trem urbano é o avião do trabalhador.

Nós muitas vezes ignoramos a essência do país em que vivemos. Este país de dimensões e culturas continentais tem como essência, aqueles que de fato o sustentam, que é a massa trabalhadora. O Brasil é daquele que leva sua quentinha abafada e é menosprezado em seu próprio país.

Enquanto a mídia quer nos empurrar o Brasil dos estrangeirismos, de uma pseudo-classe média, o Brasil de verdade passa a nossa porta, conduzido pela minhoca de metal que entorta as ruas...

3. Lulu Santos – Casa (Álbum “Lulu” – 1986)

Casa

Primeiro era vertigem omo em qualquer paixão

Era só fechar os olhos

E deixar o corpo ir

No ritmo...

Depois era um vício

Uma intoxicação

Me corroendo as veias

Me arrasando pelo chão

Mas sempre tinha a cama pronta

E rango no fogão

Luz acesa, me espera no portão

Pra você ver

Que eu tô voltando pra casa

me ver

Que eu tô voltando pra casa

Outra vez

Às vezes a tormenta

Fosse uma navegação

Pode ser que o barco vire

Também pode ser que não

Já dei meia volta ao mundo

Levitando de tesão

Tanto gozo e sussuro

Já impressos no colchão

Pois sempre tem a cama pronta

E rango no fogão

Luz acesa, me espera no portão

Pra você ver

Que eu tô voltando pra casa

me ver

Que eu tô voltando pra casa

Outra vez

Primeiro era vertigem

Como em qualquer paixão

logo mais era um vicio

me arrasando pelo chão

pode ser que o barco vire

também pode ser que não

já dei meia volta ao mundo

levitando de tesão

pois sempre tem a cama pronta

E rango no fogão

Luz acesa, me espera no portão

Pra você ver

Que eu tô voltando pra casa me ver

Que eu tô voltando pra casa

Outra vez

Lulu Santos é daqueles músicos que flertam com a diversidade de sons. Este, sem dúvida foi o seu melhor momento, com o álbum “Lulu” de 1986, sendo considerado uma referência para os anos 80. “Casa” é uma de suas melhores composições e retrata a realidade de muita gente. Por inúmeras vezes me vejo nesta música.

Sempre precisamos de um retorno, de uma volta, que seja pra casa, ou pra dentro de nós mesmos. Um recomeço ou simplesmente, um retorno. Retorno ao conforto, ao nosso lugar, onde encontramos alguém à nossa espera, a comida quente no fogão. A minha geração tem esta sede por aventura, e sempre estamos arriscando, indo além. É como sabemos viver. Todavia, toda aventura tem seu preço, que nem sempre estamos dispostos a pagar...

O bacana disso tudo é a certeza de poder voltar. Mesmo que o custo seja alto, nos é permitido voltar. Feliz aquele que não faz de sua jornada um caminho sem volta. Feliz aquele que segue, que arrisca, que vive entre acertos e erros, mas que sempre almeja o retorno pra casa, seu lugar de descanso, de repouso. Seu aconchego.

2. O Rappa – Minha Alma (Álbum “Lado B Lado A” – 2000)

Minha Alma

A minha alma tá armada

E apontada para a cara

Do sossego

Pois paz sem voz

Paz sem voz

Não é paz é medo

Às vezes eu falo com a vida

Às vezes é ela quem diz

Qual a paz que eu não quero

Conservar pra tentar ser feliz (x4)

As grades do condomínio

São para trazer proteção

Mas também trazem a dúvida

Se é você que está nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo

Faça um filho comigo

Mas não me deixe sentar

Na poltrona no dia de domingo, domingo

Procurando novas drogas

De aluguel nesse vídeo coagido

É pela paz que eu não quero

Seguir admitindo

É pela paz que eu não quero, seguir

É pela paz que eu não quero, seguir

É pela paz que eu não quero, seguir

Admitindo

Já disse Tony Stark, o Homem de Ferro: “Paz é quando nossa arma é maior que a do outro”. Na verdade, cada um tem seu conceito formado sobre a paz. Mas a como a música diz, “Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz”. A paz vem do interior de cada um, é algo intrínseco ao homem. Não se pode dar aquilo que não se tem.

O Rappa mostra nesta música toda a hipocrisia da sociedade brasileira, escondida atrás dos muros dos condomínios de luxo, procurando drogas de todos os tipos na TV sempre manipuladora, enquanto a vida corre lá fora, com seus medos, seus riscos e desafios. Não é possível privar-se da vida, privar-se do mundo lá fora, mesmo que traga consigo toda espécie de riscos e malefícios.

A “minha alma” é um reflexo de como nos armamos interiormente em gestos egoístas e nos desarmamos exteriormente, deixando que o mundo, os governos, o politicamente correto, as tendências tomem as rédeas da situação. Assim somos manipulados, manietados e dependentes de um sistema opressor e excludente. Isto é a realidade só não ver quem não quer.

1. Legião Urbana – Há Tempos (Álbum “As Quatro Estações” – 1989)

Há Tempos

Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade.

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão

E o descompasso e o desperdício herdeiros são

Agora da virtude que perdemos.

Há tempos tive um sonho, não me lembro

não me lembro...

Tua tristeza é tão exata

E hoje o dia é tão bonito

Já estamos acostumados

A não termos mais nem isso.

Os sonhos vêm e os sonhos vão

O resto é imperfeito.

Disseste que se tua voz tivesse força igual

À imensa dor que sentes

Teu grito acordaria

Não só a tua casa

Mas a vizinhança inteira.

E há tempos nem os santos têm ao certo

A medida da maldade

Há tempos são os jovens que adoecem

Há tempos o encanto está ausente

E há ferrugem nos sorrisos

E só o acaso estende os braços

A quem procura abrigo e proteção.

Meu amor, disciplina é liberdade

Compaixão é fortaleza

Ter bondade é ter coragem

Lá em casa tem um poço

mas a água é muito limpa.

De uns tempos pra cá, vejo “Há Tempos” como minha trilha sonora. Ao mesmo tempo que esta música traz consigo uma verve depressiva, ela revela a realidade do nosso meio. Percebo esta música como a realidade de muita gente. E Renato Russo imprimiu nela toda a insatisfação com o modo como levamos nossa vida. Em cada verso uma verdade que funciona como um soco no estômago no falso moralismo e toca fundo na alma. Há cada vez que escuto esta canção, percebo uma mensagem nova, atual e sincera. O mundo é mal e as pessoas cada vez mais estão se vendendo a ele, cercadas de egoísmo e vaidade.

“Há Tempos” fala da perda da fé no homem contemporâneo, cada vez mais escravo dos vícios e do mundo. Um homem carregado de frases prontas sobre tudo e sobre todos, sobre seus sonhos. Um homem de cerviz dura e pragmática, cada vez mais intolerante e inflexível. Hedonismo e positivismo completos.

Até mesmo dentro da fé, dentro dos grupos religiosos, vemos este homem, vemos esta descrença na vida, nas atitudes e no amor. Cada vez mais estamos vivendo na indiferença em relação a quem sofre. Por isso, ter bondade, de fato, é um gesto corajoso frente a este mundo cruel e implacável que nos consome.

A escolha, graças ao Bom Deus, depende hoje e sempre de nós. E se baseia no que buscamos. Enquanto muitos aqui no mundo buscam ser trigo, agradando a todos, fazendo concessões em suas crenças e caráter e com isso sendo consumidos por este mesmo mundo, ainda há quem busque ser joio, sendo excluído e colocado à margem, sem no entanto perder a fé e a autenticidade.

Esta aí a minha playlist nacional. Em breve, as internacionais. Até lá!

Belo Horizonte, 15 de Junho de 2011.