quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Depoimento de moradora do bairro Suzana em Belo Horizonte - MG

Não eram nem 5 da manhã quando abrimos os olhos e nos deparamos com a água já sobre nossas casas. Sim, choveu muito, mas aquela quantidade toda de água não nos parecia vir exclusivamente da chuva. As compotas da Lagoa da Pampulha foram abertas, pois, o nível da Lagoa subiu e isto, segundo a Prefeitura, tornou-se uma ameaça fatal para algumas regiões de BH, sobretudo, para nobre região da pampulha. Então ok: abriram as compotas e a água foi escorrendo para todos os possíveis cantos, mas tudo isso dá em um único lugar: Córrego do Onça: Favelas e periferias que ficam ao redor do mesmo.
Hoje, 23 de Novembro de 2010, aconteceu uma enchente como nunca antes. Pessoas que moram no bairro há mais de 50 anos diziam nunca ter visto algo igual. Pois bem, nos reunimos e fomos à luta mais uma vez e mostramos a BH e ao país (ainda que pela mídia sensacionalista) a nossa existência; já que somos um bairro que a Prefeitura quer, a cada dia, extinguir do mapa. Isso eu digo pelo fato de nunca conseguirmos o falso “Orçamento Participativo”; pelo fato de o ônibus servir apenas aos demais bairros vizinhos (pasmem: depois da construção da Linha Verde, feita pelo Sr. Aécio, a linha 5101 - SUZANA/CRUZEIRO - passa em apenas 1 rua do bairro suzana e o ponto final encontra-se no bairro de classe média Dona Clara); pelo fato de retirarem várias famílias para a construção da Linha Verde; pelo fato de não existirmos no mapa de BH, e olha que geograficamente pertencemos a tão nobre regional Pampulha.
De dia ficamos sem água e agora a noite estamos sem luz, muitas casas ainda com barro. Sofrimentos, revoltas, ações e reações das mais diversas formas foram feitas: muitos rezavam o tempo todo; alguns se reuniram e chamaram o poder público (discutiam, negociavam, reivindicavam seus direitos); outros se uniam e botavam fogo nas coisas perdidas pela avenida cristiano machado. Cada um reagindo da forma que foi possível.
O bairro Suzana é dividido em duas partes: a parte alta e a parte baixa (que fica mais próxima da Cristiano Machado, de frente para o córrego do Onça). À tarde a região recebeu a visita do Prefeito e...... qual foi a única medida que Márcio Lacerda disse que tomará??? Será colocado um radar para medir o nível da água no córrego. Ponto final, nada mais que isto. E a linha verde permanece acabando com parte de nossas famílias e a cidade administrativa permanece lá, intacta.

De tudo que experimentei hoje o que mais me marcou, felizmente, não foram as cenas de tristezas, mas sim o companheirismo entre as pessoas. Gente da parte de cima (casas que a água passou longe) e até mesmo gente que veio de outros lugares, desceram até nós e foram de casa em casa oferecendo ajuda: levaram comidas, pães, café quentinho na hora, palavras e conversas afetuosas para nos encorajar a encarar a situação. Situação esta que sabemos que não será solucionada de imediato, mas sabemos também que nem Márcio Lacerda irá nos desarticular, nem os policiais que nos vigiaram hoje durante todo o dia.
Nossa força vem não sei de onde, permaneceremos brigando com esse governo para que medidas dignas sejam tomadas. Aliás, eu sei de onde vem sim essa força: vem da nossa ancestralidade, pois, como dizia minha vó: “suzana é onde cresci, suzana é o que construí. Suzana só morre para quem se esquece das origens.”
Gente este e-mail é para compartihar com todos/as vocês minha agonia pelo dia de hoje, mas também para agradecer a todos/as que se fizeram presentes. Os que me ligaram, os que saíram de sua rotina e vieram nos ajudar, os que rezaram por nós.
Peço aos que puderem que nos doem o que estiver ao alcance (roupas, sapatos, colchões, eletrodomésticos, roupas de senhoras, roupas de bebê, enfim, o que tiverem) e para encaminhar este e-mail a demais pessoas. Assim é só me ligar ou me retornar por e-mail que eu ou qualquer outra pessoa do bairro daremos um jeito de buscar.
Te agradeço!

Enfim, esta é apenas um das muitas lutas que rola por aí...

AKOMA sempre, para todos/as nós!!!

Danielle Anatólio
(Moradora do Bairro Suzana)

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